(...) busco o sofrimento genuíno, o suor, como se só dele pudesse sair o prazer. Você já passou por isso? Você por acaso sabe do que estou falando? Não, não é? Como então posso te fazer entender o vulcão não mais adormecido que mora dentro de mim? Te descrever. Que palavras usar sem ser as clichês? Um dia, eu te perguntei o que você queria de mim e você me respondeu o impossível. Nunca esqueci disso. Como você podia ainda querer o que de mim já tinha tudo? Você tinha todo o meu improvável, tudo de não possível que eu poderia viver eu te dei – será que você não viu? Agora vagueio por essa casa imensa e vazia. As crianças já são adultas e foram embora. Ele tem outra mulher e todas as quintas a leva naquele mesmo hotel que costumávamos ir. Depois chega em casa com cheiro de xampu vagabundo e acha que eu não percebo nada. A vida é ridícula em seus clichês de novela. Sabia que eu não me importo com essa outra mulher? Ela é a minha salvação – a existência dela garante minha ida para o céu todas as noites que ainda me toco pensando nos teus beijos. Hoje me permito, sem mais culpas. É o meu segredo. Meu erro. Meu desvio. Minha transgressão. Gosto disso. Gosto de pensar em mim como uma pessoa que tem um mistério. Pessoas misteriosas são instigantes. E é no mistério que eu me escondo. Posso ser o que eu quiser se ninguém souber o que eu sou. Até mesmo nada. E é como um nada que eu me sinto quando não te sinto. E depois de tanto tempo não acho que isso seja um erro. Mas hoje, quando sei que não estás mais aqui, sinto medo. Muito medo. A fantasia ocupa o espaço inteiro dessa casa. Não me tire isso. Viva, nem que seja apenas para que eu veja sentido em estar aqui. A minha existência, misteriosa ou não, significa te desvendar, te descrever. E agora que sua história acabou? Não acredito nesse prá sempre. Prá sempre é aqui, no plano real. As coisas só não são findas enquanto vivas. Não tire de mim a possibilidade, o quem sabe, o talvez. Mesmo que seja impossível. O impossível somos nós, e isso eu já conheço. Não me venha com a morte - ela é real demais e não combina com a história que eu tenho que contar. (...)
1 comments
Monicake April 7, 2008 11:58 PM PDT Te indiquei pra uma "corrente" lá no meu blog! Mas acho q vc vai gostar!!!
Bjos!